Estética espontânea


Não é a primeira vez que Rochelle Costi chama a atenção para uma espécie de estética da vida diária, isto é, para a maneira como as pessoas articulam a sua individualidade – seus gostos, interesses e percepções – nos espaços, objetos e atividades com os quais convivem cotidianamente. Quartos de dormir, pratos de comida e estabelecimentos comerciais já estiveram em foco na obra da artista, que dessa vez investigou ambientes de trabalho. Convidada a desenvolver um projeto a partir do contexto do Centro Cultural São Paulo, foi no porão que a artista centrou seu olhar. Local desconhecido do grande público, ele abriga as oficinas de marcenaria, elétrica e serralheria, além da gráfica e do laboratório de restauro. A série de fotografias que Rochelle apresenta traz à luz um pouco desses ambientes, revelados - como por entre frestas - por meio de pequenas reapropriações do lugar. Arranjos e construções que também informam a maneira como a artista expõe essas imagens: em backlights produzidos no próprio porão e inseridos nos painéis expositivos do CCSP.

* Texto de apresentação do trabalho desenvolvido por Rochelle Costi para o Centro Cultural São Paulo como Artista Convidada do Programa de Exposições 2009, ao lado de Daniel Senise e Ricardo Basbaum. As exposições dos três artistas ficam em cartaz de 14 de novembro de 2009 a 14 de março de 2010.

Sinais de fumaça

A comunicação por sinais de fumaça baseia-se na decodificação de signos visuais. Se por um lado ela possibilita a difusão de mensagens a longas distâncias, por outro a sua leitura depende de um olhar atento e do reconhecimento dos códigos utilizados, bem como de condições climáticas favoráveis. A exposição Sinais de fumaça toma emprestado esse termo para fazer referência a estratégias de disseminação da arte que vão além da exibição de obras em museus e galerias, valendo-se de suportes e mídias que propiciam uma propagação alastrada do pensamento e prática artísticos, capaz de atingir destinatários distantes e incalculáveis. Por sua existência múltipla e descentralizada, as publicações de artista (livros, jornais, revistas, panfletos, cartazes, postais, folhetos e outros impressos) e as edições ilimitadas (CDs, DVDs, LPs, camisetas, adesivos, cartões telefônicos, tecido ou papel estampado, etc) são meios privilegiados para essa forma de veiculação.

A exibição em um espaço museológico de trabalhos que questionam a circulação restrita a esse contexto não é um movimento simples (nem um dilema novo). Sinais de fumaça parte desse problema para realizar um recorte da coleção de publicações e edições de artista FMRA, mantida pelo Centre National de l'Estampe et de l'Art Imprimé - CNEAI (Chatou, França), incluindo também peças pertencentes à Coleção de Arte da Cidade, ao Arquivo Multimeios e à Biblioteca Volpi, sediados no Centro Cultural São Paulo. Nesse sentido, estratégias de circulação e disseminação características dessa produção artística foram aqui tomadas como assuntos ou campos de interesse que definem os quatro pontos de partida da exposição: deslocamento, movimento, propagação - troca, intercâmbio, correspondência - multiplicação, repetição, reprodução - relação texto-imagem, decodificação, tradução.

As demandas de conservação de peças pertencentes a coleções públicas exigem uma exibição protegida, distante do tipo de aproximação que a natureza desses trabalhos pediria. Estáticas por detrás dos vidros, as obras se oferecem recortadas e associadas umas às outras como em uma colagem, criando um discurso a partir da soma de detalhes. Em contraposição, algumas publicações são disponibilizadas não apenas para manuseio, mas também para cópia, o que reafirma o seu caráter reprodutível e a possibilidade desses trabalhos circularem por outros espaços e situações.

Sinais de fumaça inclui, por fim, a participação de sete artistas que desenvolveram obras em diálogo com o foco da mostra. Stéphane Magnin e a dupla A constructed world criaram espaços de leitura, escuta e consulta para esses materiais, propondo situações e recortes que provocam diferentes relações com as obras expostas. Já Ana Luiza Dias Batista, Cadu, Carlos Issa e Rodrigo Matheus foram convidados a pensar em trabalhos que tomam a linguagem impressa, a idéia de reprodutibilidade e a possibilidade de circulação como estratégias de ampliação da sua presença, do seu potencial de comunicação ou do seu sentido. Sinais de fumaça integra a programação oficial do Ano da França no Brasil.

* Texto escrito em parceria com Carla Zaccagnini para a exposição Sinais de fumaça, de curadoria de Carla Zaccagnini, Fernanda Albuquerque e Sylvie Boulanger. A mostra acontece no Centro Cultural São Paulo de 29 de agosto a 8 de novembro de 2009.

*
Caderno-parque (detalhe), 2009. Trabalho de Ana Luiza Dias Batista em exposição na Sinais de fumaça.

No fio da navalha


Arte e política é o tema do livro lançado em 2007 pelo cientista social Miguel Chaia – e o ponto de partida desta entrevista, que em muitos momentos se aproxima de uma conversa. Perguntas ganham um tom afirmativo, ou antes, expressam questionamentos pessoais, ao mesmo tempo em que as respostas indagam constantemente suas posições, evidenciando o caráter investigativo do pensamento de Chaia. “Estou afirmando agora o que penso por enquanto”, diz o professor e pesquisador do Núcleo de Arte, Mídia e Política da PUC/SP, para quem a relação entre arte e política é, antes de tudo, paradoxal.

Em Arte e Política [Azougue Editorial], você afirma que o encontro entre esses dois campos é um encontro de convivência paradoxal. Pode falar um pouco sobre essa ideia?

A arte tem um domínio próprio, se constitui como linguagem, como poética expressiva. Diria que ela possui um campo autônomo, que pode estar ligado a outras esferas, como a religião e a filosofia, mas não necessariamente está. Por outro lado, a política é um campo forte, abrangente, que pode afetar a arte de duas maneiras: ou instrumentalizando-a, ou dificultando a produção artística. Onde estaria o paradoxo? A arte aponta numa direção, que é a direção da criatividade, da liberdade, da pesquisa e da revolução de linguagem, e a política aponta para outro lado, que é a esfera das relações de poder, do conflito aguçado, da luta por pequenos poderes. Mas nada impede que a arte constitua-se como micropolítica ou mesmo como macropolítica. Um exemplo de micropolítica é a obra 111, do Nuno Ramos. O trabalho coloca a posição política de um sujeito, o artista, no interior de uma determinada situação histórica [o massacre de Carandiru]. Nesse caso, estamos falando não da política de Estado, ou partidária, mas da posição de um indivíduo. Por outro lado, se analisarmos o realismo socialista que se desenvolve na União Soviética, temos a arte não mais na esfera da micropolítica, da discussão circunscrita, mas como experimento da política de Estado, das relações de dominação. Uma experiência intermediária é a obra do Candido Portinari, que fica um pouco na esfera da micropolítica, mas possui aproximações com o Partido Comunista Brasileiro e com o Estado.

Essa ideia de paradoxo não traduz um certo temor bastante recorrente no debate sobre arte e política de que, na convivência entre esses dois campos, o político se sobressaia e o artístico fique como que sufocado, solapado?

De certa forma, sim. Mas em que sentido a expressão poética e a dimensão estética podem ser eliminadas pela política? Só e quando não há preocupação com o desenvolvimento da linguagem, com a discussão da linguagem, com a revolução da linguagem. Quando não existe liberdade para a formulação de uma poética própria. É um fator eminentemente estético que garante à arte política que ela não seja engolida pela grande política. Essa redução da preocupação com a linguagem acontece de maneira muito clara no realismo socialista e também na arte nazista. Tanto um, quanto o outro, reproduzem linguagens já estabelecidas, seja o realismo, seja a arte grega. Mas existem casos em que uma dimensão política forte pode conviver com uma experiência de linguagem. No muralismo mexicano, por exemplo, o Estado praticamente subsidia os artistas, mas pela experiência que eles têm na Alemanha com o Expressionismo e o Fauvismo, os muralistas mexicanos vão trabalhar junto com o Estado, mas desenvolvendo suas próprias linguagens. Vão se utilizar da montagem cinematográfica, da história em quadrinhos, da pintura expressionista. É essa liberdade de experiência que faz com que a dimensão estética se mantenha. Mas até certo ponto, porque quando existe esse envolvimento com a política de maneira tão forte, com um partido político, com o Estado, ou mesmo com uma ideologia, há uma tendência a um certo esvaziamento. Outro exemplo é a produção brasileira dos anos 1960 e 1970. Artistas como Artur Barrio e Carlos Zílio produzem experimentos bastante radicais sob o impacto da ideologia política, mas aí também temos uma autonomia de linguagem, uma pesquisa de linguagem. Situações como essas me fazem pensar que é possível falar em ciclos. Tenho a impressão de que a relação entre arte e política não se dá de forma constante. Existem momentos em que ela fica mais forte e momentos em que enfraquece, como se as obras que trouxessem uma dimensão política mais acentuada fossem produzidas durante um certo tempo: o tempo do conflito, da guerra, isto é, o tempo em que a política se constitui como grande cenário.

Em que existe um contexto social tensionador...

Exato. Que gera a necessidade de aproximar a arte desse cenário. A arte política no Brasil dura até a década de 1970. O realismo socialista também dura do final dos anos 1920 até os anos 1950, 1960. A arte nazista se produz durante a guerra, e as vanguardas também. Essa é uma questão que me instiga: por quanto tempo a obra de arte pode ser produzida politicamente?

E quanto ao momento atual, de meados dos anos 1990 para cá, não te parece que houve um fortalecimento de uma arte de preocupação política? Penso nas produções que se realizam em contextos sociais específicos, que se voltam para o espaço público, ou para comunidades, que flertam com o campo da antropologia.

Concordo com você. Mas desde que se considere a negação desse fenômeno em paralelo. Porque se percebêssemos constantemente a aproximação entre arte e política, se essa relação se rotinizasse, é como se a arte deixasse de ser autônoma, deixasse de ser linguagem, poética. Teríamos então de dizer que toda arte é política, mas como essa relação é paradoxal, há momentos em que esses campos se aproximam e momentos em que eles se distanciam. A arte não é o campo da política, nem o da economia. Diria que hoje a relação entre arte e política desdobra-se em duas esferas. A primeira é a da relação da arte com o mercado. Principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, vivemos, nos últimos anos, um crescimento do mercado de galerias e de grandes exposições institucionais espetacularizadas. Mas não se pode dizer que o mercado tenha ganho a parada, porque paralelamente a arte contemporânea ganhou uma dimensão reflexiva. Talvez em função da força do conceito, talvez pelo fato de um grande número de artistas contemporâneos não trabalhar necessariamente com o objeto, mas com a idéia, não trabalhar no cubo branco, mas na cidade, não trabalhar voltado para uma galeria, mas para um bairro. O que acontece é que a arte contemporânea abriu um leque, que pode levar tanto para uma postura individual radical, de negação, ou de crítica ao mercado, mesmo participando dele, quanto para uma postura voltada para o campo social, ou sócio-político. Vemos hoje um grande número de ativismos artísticos e estéticos, artistas que perambulam por favelas, por bairros pobres e formam o seu campo de atuação ali. Nesses casos, a arte se constitui na construção de uma trama coletiva no qual o estético passa a servir para agregar as pessoas sob uma determinada direção de sociabilidade mais complexa, mais sofisticada, mais humanizada. O JAMAC é um exemplo, mas têm muitos outros, como os artistas que ocuparam o Prestes Maia. Aí se coloca de novo a questão: até onde esses artistas, para manterem o campo da estética, da expressão poética, desenvolvem uma pesquisa de linguagem? Até onde eles priorizam o campo da estética e até onde priorizam o campo da sociabilidade?

Muitos artistas vão dizer que não importa se a sua prática é vista como própria do campo da arte, ou do campo social, que essa não é uma questão. Mesmo que esses artistas sigam participando de exposições e fazendo o seu trabalho circular por espaços próprios do sistema da arte.

Arte é um conceito polissêmico. Cada artista pode criar a sua concepção de arte. Essa é uma possibilidade colocada pela contemporaneidade. O artista pode querer eliminar a aura artística e afirmar que ele não é um ser diferenciado, com um tipo específico de conhecimento, de produção de linguagem, etc. Então depende da concepção de arte que se tem. Eu, pessoalmente, penso que a arte é uma área ligada ao social. E é aí que o problema se coloca: até onde podemos dizer que arte é expressão poética, pesquisa, desenvolvimento de linguagem, tentando explicitar as relações sociais, e até onde ela é relação social? É uma questão em aberto. Gosto da idéia de arte como relação social não quando ela se dilui na sociabilidade, mas no campo da performance, da instalação, do vídeo, das novas tecnologias. Tenho a impressão de que nessas linguagens o campo da arte se amplia ao seu limite. Como se chegasse perto do fio da navalha. Na fronteira, estariam os ativismos.

E nas linguagens mais tradicionais, desenho, pintura, gravura, como você vê o diálogo entre arte e política?

Talvez com o desenho e a pintura a discussão seja mais intimista, reflexiva. Já na performance, nas instalações, no vídeo, ou nas novas tecnologias, me parece haver um facilitador frente às condições da sociedade contemporânea, como se essas linguagens pudessem traduzir com mais facilidade uma nova percepção.

Talvez nas linguagens mais tradicionais, a preocupação política tenda a aparecer mais como tema do que como pesquisa de linguagem.

Será que na pintura e no desenho a intensidade relacional se reduz? Por outro lado, são linguagens potentes exatamente por se distanciar daquilo que é ordinário.

Por sugerir um outro tempo de relação, de percepção. Talvez mais do que outras linguagens que se mesclam tanto à vida cotidiana, ao seu tempo, à sua dinâmica, que podem chegar a se camuflar nela. Estou pensando alto também...

Gostei do termo que você usou: camuflagem na vida cotidiana. Até que ponto a arte, quando vai em direção da camuflagem na vida cotidiana, perde a sua especificidade? Ou melhor, quando ela adquire especificidade? Mesmo com Duchamp não é qualquer coisa que é arte. Não é essa a idéia que está presente em seu trabalho. É arte aquilo que tem um conceito específico e que se diferencia do cotidiano.

Mas se por um lado podemos pensar que a camuflagem de uma experiência artística não instaura um outro tempo de relação, uma outra disposição por parte do público, por outro lado, quando lidamos com algo que é evidentemente um objeto, ou uma experiência artística, a expectativa que se tem em relação a isto também pode favorecer uma atitude pouco potencializadora dessa relação. Quero dizer que, para muitas pessoas, o fato de elas saberem que a entrega de um panfleto, por exemplo, faz parte de uma ação artística talvez faça com que elas se sintam intimidadas, distanciadas e mesmo inaptas para experienciar aquilo. Em outras palavras, talvez a camuflagem as aproxime do trabalho. É uma questão para se pensar.

A origem dessa questão está na ideia da Escola de Frankfurt de que a arte, a partir da revolução industrial, teria perdido a sua aura. Isso em função da possibilidade de reprodução técnica das imagens. Pode ser que efetivamente esteja acontecendo isso. Mas por outro lado a arte segue tendo seu tempo. Me parece que essa relação entre arte e política e entre arte e sociedade atinge o ápice nos nossos dias. Com as propostas teóricas e os desenvolvimentos de linguagem propiciados pela tradição do passado, tornamo-nos aptos a trabalhar com a arte na instância da relação social, na concepção do desaparecimento do artista e da própria obra. Por outro lado, ainda é possível apontar o que é arte e o que é artista. A Regina Silveira tem uma gravura, se não me engano, que diz que arte é enigma. Mesmo na contemporaneidade, as obras mais potentes são aquelas que mantêm esse enigma – quando a política não é o reino do enigma, mas do provável. E o reino da sociabilidade é o reino do ajudar ao outro, ideia presente no trabalho do Maurício Ianês nessa Bienal [28ª Bienal de São Paulo], que é um pouco depender da vontade do outro para sobreviver. Até onde essa questão é mais sociológica do que estética? Penso que a ideia da imprevisibilidade, da imponderabilidade, do enigma é o que distinguiria a obra de arte daquilo que é ordinário, cotidiano. Mas voltando à ideia da camuflagem, aparentemente, quando a arte entra na sociedade e se coloca como relação social, acho que se esquecem três idéias. Primeiro, a idéia do Karl Marx de que o capitalismo é hostil à arte. Segundo, a do Antonin Artaud, para quem Van Gogh não teria se suicidado. A sociedade é que o teria matado, já que é da sua natureza destruir as individualidades. E a terceira é a do Jean-Luc Godard de que a cultura é a regra, a arte é a exceção, e é da cultura querer matar a exceção. Em outras palavras, se for arte, a sociedade tende a destruir, eliminar, hostilizar. Gosto desse parâmetro.

É uma ideia forte, mas me pergunto se ela não é muito moderna, se se aplica aos dias de hoje... Porque é um pouco como se a gente acreditasse numa certa pureza do pensamento artístico, numa autonomia quase absoluta, como se o artista produzisse fora da sociedade e sua obra contivesse uma força, uma potência, que a sociedade não conseguisse abarcar e com a qual não conseguisse conviver.

É verdade. Legal você ter levantado isso. Por um lado, acho que esse entendimento se aplica fundamentalmente àqueles artistas que se embrenham na sociabilidade, se misturam às relações sociais. Por outro, o capitalismo também se tornou muito sedutor. O Fredric Jameson fala do capitalismo cultural. Segundo ele, o capitalismo hoje se reproduz em cima da beleza e da estetização do cotidiano. Então é verdade, sim, que na pós-modernidade, a arte e o artista foram incorporados pela sociedade contemporânea. A ideia de glamour e de beleza está presente desde a carteira de cigarro até o carro. Realmente há uma incorporação do estético.

Não no sentido de um desenvolvimento da sensibilidade, da percepção, da reflexão, mas no sentido da estetização das formas, é isso?

Isso. Por outro lado, também há o crescimento do mercado de arte. Os artistas hoje vendem e têm de enfrentar essa situação. Não podem fugir do mercado, mesmo porque muitos deles se dedicam apenas à sua pesquisa. Quando muito, dão aula. Por isso o artista na contemporaneidade é colocado no fio da navalha. O fato de vender não deixa de representar um perigo. Mas me parece que o artista contemporâneo tem mais instrumentos e conceitos para lidar com essa situação: a facilidade do mercado versus a necessidade de desenvolver a sua linguagem. Agora, em que medida a pressão da sociedade tende a aniquilar o artista? Talvez permanentemente, mesmo nos dias de hoje. Quando um artista vende bem, isso pode acabar reduzindo o seu potencial de causar incômodo.

Até mesmo pelo aspecto um tanto celebrativo que essa circunstância pode promover e que muitas vezes não condiz com as inquietações que estão por trás do trabalho.

Mas e por que não o aspecto celebrativo?

Boa pergunta. Talvez eu esteja sendo muito moderna. Mas, se por que não o aspecto celebrativo, então por que não a camuflagem na vida social? Entende o que quero dizer? Se concordamos que não faz sentido estabelecer regras a priori...

É verdade. Podemos pensar nessa questão juntos. Talvez por vivermos em uma sociedade de massa, imensa, complexa, heterogênea, em que local e global se misturam, é possível, sim, pensar que cabe à estética criar relações sociais em que a percepção se torne mais aguçada, em que a vida seja melhor. É quando o artista opta por criar numa esfera social uma nova trama, englobando um maior número de pessoas. Acho que isso pode ser visto até como um avanço da ideia da arte conceitual. O conceito importante nesse caso passa a ser o de criar um espaço em que as pessoas vivam melhor, em que as relações sejam mais reflexivas, afetivas, etc. Seria como criar um campo estético social. Mas aí entramos naquela ideia da vida como obra de arte. É uma das possibilidades para se pensar. É isso que você está querendo dizer?

Exato. Realmente não vejo essa aproximação extrema com a esfera social como um problema. Mais do que me preocupar com a possibilidade de uma ação artística se confundir com uma ação social, me preocupa a possibilidade de uma ação artística que tem por base uma intervenção social realizar uma intervenção danosa. Afinal, quando falamos desse tipo de prática, estamos falando de outros campos do conhecimento também.

Claro. Mesmo porque o campo das relações sociais tem especificidades. Para você entrar nele, é necessário conhecimentos, técnicas e cuidados que não necessariamente o artista tem.

Em muitos casos, o investimento do artista numa determinada comunidade é muito pontual. Então se cria uma expectativa que acaba frustrada. Mas claro que um profissional da área social não está livre de promover uma intervenção danosa também.

Verdade, mas talvez o artista carregue esse risco em maior proporção.

Normalmente, não faz muito sentido o artista produzir atentando para o efeito, ou a reação que sua obra pode suscitar. Mas nesses casos essa atenção está um pouco na base do trabalho.

O artista deve criar a partir de uma ética própria, de uma potência interna a ele mesmo, individualizada. Já o assistente social, ou o médico, produzem a partir de uma ética que está acima deles, de uma moral. E tem objetivos claros. Essa diferença é importante. Por isso acho que estamos num campo de maior risco. Mas a arte contemporânea vai nessa direção também. Não há mais limites para a experimentação estética, desde o próprio corpo até o outro. E quanto mais o envolvimento com o outro se coloca, mais a dimensão política tende a ser polêmica, porque o trabalho pode deixar de ser estético para se tornar sociológico. Quando o artista diz eu sou a relação social e a arte é relação social, não sei se estamos no campo do estético, ou no campo de uma sociabilidade diferenciada. Mas tenho muitas dúvidas quanto a isso. Estou afirmando agora o que penso por enquanto.

A origem dessa problemática, dessa relação tensa entre o campo da arte e o campo da política, estaria ligada ao processo de autonomização do campo artístico e à consequente redefinição da função da arte e do artista?

A relação entre arte e política é antiquíssima. Está presente nos gregos, na Idade Média. Mas ela se constitui como problema com as vanguardas históricas, no início do século 20. Os dadaístas, surrealistas, futuristas. E, mais tarde, com os situacionistas. É quando se coloca a crítica da arte pela arte, a arte como produto de uma sociedade burguesa que tem de ser alterada. É quando se passa a colocar em xeque a ideia de obra de arte como mercadoria e o próprio mercado. Mas são muitas as possibilidades de se pensar a relação entre arte e política. No livro [Arte e Política], levanto quatro, mas você e eu já levantamos uma dezena. O que é muito importante quando falamos em arte e política, é tentar estabelecer o contexto e a especificidade dessa relação. Pode haver uma relação em que a questão política é própria do artista, uma situação em que a dimensão política é dada mais pela leitura do trabalho, uma situação em que entram em jogo ideologias mais amplas, etc.

Mas se a gente pensar que a arte sempre vai se relacionar com um determinado contexto, nem que seja o contexto histórico e cultural do artista, não faz sentido crer na possibilidade de uma arte efetivamente autônoma.

Por um lado, é verdade que a arte é histórica, resultado da práxis humana. Trata-se de um trabalho, como diz a Hannah Arendt. Uma forma de criar conhecimento que está ligada ao contexto de produção cultural de um determinado momento. Por outro lado, ela é desenvolvimento da linguagem de um indivíduo e da linguagem de uma história. E nesse sentido o artista só pode fazer aquilo que as condições herdadas por ele permitirem. Mas ainda acredito que há um teor de autonomia na arte. No sentido de que ela diz respeito não necessariamente à história de modo geral, mas à história da arte e da linguagem.

Por mais que a história da arte e a produção artística estejam sempre vinculadas a contextos históricos...

Exato. É preciso pensar essa questão levando em conta essa ambiguidade. Existem recursos, métodos, valores, símbolos, signos que são próprios de uma linguagem, de um suporte, de uma mídia. Quer dizer, a pintura propicia isso, o desenho aquilo, o vídeo outra coisa. De fato, o artista está no interior de um determinado contexto histórico, mas a arte também tem uma especificidade. Por que Shakespeare nos toca até hoje? Porque há ali uma continuidade daquilo que é próprio da arte.

Você acredita que a arte pode interferir ou transformar a realidade social?

A arte pode transformar as realidades subjetivas. Podemos ser transformados por um livro, uma peça de teatro, uma pintura, uma instalação. Mas é uma transformação que acontece no indivíduo. A arte não tem o papel das ideologias, que mesmo elas não conseguem cumprir, de produzir transformações sociais, de fazer revoluções. A não ser a revolução da linguagem. Nesse sentido, ela é transformadora no seu próprio âmbito. Talvez a alteração da subjetividade esteja relacionada à revolução da linguagem. Amplia-se a percepção, na medida em que a arte se radicaliza na linguagem, mas não se transforma o mundo, a sociedade, a cidade, o bairro. Transformam-se as nossas subjetividades. O que muda a realidade é a história.

* Entrevista originalmente publicada na revista Tatuí n.6, em junho de 2009.

** Livro de carne, de Artur Barrio, 1979.

As articulações do vazio ou em busca do buraco da Bienal*


“Voltando às coisas, o que fazer com elas? Procuro algo útil para ocupar o lugar das coisas. Coisa junta pó.” O pequeno texto, impresso em uma das gravuras de Leya Mira Brander expostas na 28ª Bienal, pode funcionar como entrada para a imagem-símbolo desta edição, o vazio ou a planta livre. “Procurar algo útil para ocupar o lugar das coisas” nada mais é o que fizeram Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen ao bancar o corajoso projeto de manter vazio um dos pisos da Bienal, substituindo o que aqui chamo de “coisas”, as obras, pela tentativa de instaurar uma reflexão. Ou, antes, uma discussão pública sobre duas crises: uma de caráter mais geral, a do modelo expositivo e da cultura das bienais, e uma mais particular, a crise institucional por que passa, há mais de uma década, a Fundação Bienal de São Paulo.

Pois o que chamo de imagem-símbolo da 28ª Bienal de São Paulo constitui o ponto zero desta edição, mas também o de todas as outras (pelo menos aquelas realizadas no pavilhão). Daí a memória percorrer camadas e camadas de lembranças da reinvenção daquele espaço, como que a não acreditar nessa possibilidade. Destituída das “coisas” que normalmente a preenchem, a planta livre evidencia, a um só tempo, a presença física da arquitetura de Niemeyer e a presença simbólica do projeto desenvolvimentista que está por trás daquela instituição. Se o vazio, quando não esvaziado de sentido, cria um terreno fértil para a discussão que a 28ª Bienal de São Paulo se propõe a instaurar, resta saber como se articula esta discussão com as obras, os artistas e os públicos da mostra.

As obras e os artistas
Que o número reduzido de obras e artistas responde à falta de caixa da instituição, isso lá é verdade (se compararmos os R$ 8,5 milhões desta edição aos R$ 18 e R$ 19 milhões das edições anteriores). Mas não se pode esquecer que a opção também traduz um questionamento do modelo bienal, reforçado pela aposta em estratégias expositivas que buscam dar conta de produções pouco adaptáveis ao formato megaexposição. Ou por demandarem uma relação com o observador pautada em outra temporalidade (caso do romance Em busca de Headdless, da dupla Goldin + Senneby, e de outras publicações presentes na mostra); ou por se constituírem mais como processo ou experiência do que como produto acabado (caso da performance Sem título (A bondade de estranhos), de Maurício Ianês, em que o artista permaneceu treze dias dentro do espaço expositivo, vivendo da bondade alheia); ou por se desenvolverem em contextos específicos (caso de Um dia como outro qualquer, de Rivane Neuenschwander, em que relógios modificados foram dispostos no prédio da Bienal e em outros espaços culturais de São Paulo), entre outras possibilidades.

Para além da tradicional apresentação de trabalhos no pavilhão, que este ano praticamente se restringiu ao terceiro piso, esta edição investiu em outros suportes e dispositivos de exposição: o jornal 28b, publicado semanalmente a partir de uma redação instalada na Bienal; a praça destinada a performances e manifestações de dança, música e cinema (que de praça pública provou ter pouco, dada a censura sofrida por alguns protestos à reação da instituição à pichação); e o video lounge, um local para a exibição de vídeos relacionados aos artistas participantes, registros feitos durante a mostra, além de filmes selecionados pela curadoria do espaço. Já no terceiro piso, a experimentação de estratégias expositivas se traduziu na série de estruturas em madeira criadas pelo colombiano Gabriel Sierra em diálogo com artistas e curadores. Além de abolir as paredes que normalmente separam as obras nesse tipo de exposição, evidenciando algo muitas vezes invisível em projetos expográficos, a museografia (o que trouxe um dado de educação do olhar interessante), os dispositivos buscaram dar conta de apresentar trabalhos que demandam um tempo mais dilatado de observação. Incorreram, no entanto, em uma certa homogeneização das interfaces expositivas que pouco dialogou com a singularidade e especificidade de cada trabalho.

Mas o que gostaria de apontar quanto à seleção de obras do terceiro piso é que, muito embora os conceitos que a fundamentam estejam explicitados (a noção de memória, de arquivo, de coleção, a aproximação entre realidade e ficção, etc) e se relacionem de alguma maneira com a idéia de propor uma espécie de arqueologia da Bienal que nos permita pensá-la no presente, não me parece que o conjunto dê conta de aquecer a discussão proposta por esta edição. Em outras palavras, não me parece que os trabalhos – e vale lembrar que eles estão dispostos no mesmo andar da biblioteca e da plataforma de conferências – contribuam para criar a arena de debate na qual esta Bienal pretendeu se transformar.

A questão nada tem a ver com uma suposta falta de trabalhos de conotação política. Até porque eles estiveram presentes, sim. Basta citar propostas como Visión de la pintura occidental, de Fernando Bryce (um comentário sobre o inacreditável Museo de Reproducciones Pictóricas, de Lima) e Vivir entre líneas (las respuestas difíciles), de Javier Penãfiel (um poema-vídeo-desenho sobre a economia das subjetividades de uma cidade) – e ainda Reação em cadeia com efeito variável, de Carla Zaccagnini, esta distante do terceiro piso (um parque em que os brinquedos, quando utilizados em conjunto, acionam o chafariz central). Ainda assim, em um projeto que se pretende vivo – concebido quase como um festival, dada a quantidade de atividades propostas ao longo das seis semanas –, me pergunto se os artistas não deveriam ter sido chamados para perto do debate, produzindo obras especialmente para a mostra, “em vivo contato” com as questões que ela evoca – o que talvez demandasse uma redefinição de nomes, mas essa é outra discussão.

Os públicos
Que a imprensa não cumpriu a função de estabelecer a mediação entre a 28ª Bienal e o grande público (permanecendo, na maioria dos casos, na reafirmação do senso-comum), isso é verdade. Mas não se pode negar que estamos diante de um projeto de mediação complexa, pouco afeito a primeiras visitas ou primeiras leituras e de conteúdo nem sempre de interesse daquilo que chamo de “grande público”. Ainda que temas como a economia das megaexposições (ou dos megaeventos espetaculosos) e a crise das instituições brasileiras não estejam lá tão distantes da vida comum.

De qualquer forma, parece que o tal “grande público” desta exposição é outro. Ou melhor, são outros. Por um lado, é formado pelo meio artístico, sobretudo o brasileiro, para quem a 28ª Bienal tem o mérito de endereçar o desafio da discussão sobre as crises que aponta. O debate organizado pela revista Número na semana posterior ao encerramento da exposição não deixa de ser um reflexo disso. Por outro lado, é formado pelos diretores e membros que integram os conselhos (honorário, vitalício e “simples”) da Fundação Bienal de São Paulo. Resta saber agora como se articularão esses públicos com a discussão levantada pela exposição – e para a qual, vale sublinhar, ela produziu um extenso material de referência e pesquisa. Se Ivo Mesquita permanece convicto em relação ao seu projeto, eu, de minha parte, sigo otimista com os seus possíveis desdobramentos.

* O título faz referência ao artigo de Guy Amado sobre a 28ª Bienal, publicado no Canal Contemporâneo.
** Artigo originalmente publicado na revista eletrônica da Fundação Iberê Camargo, em dezembro de 2008.

Circunstância: centro


Caleidoscópicas e multifacetadas, como as imagens que fazemos do mundo depois de algumas taças de vinho – ou ao percebemos a possibilidade de observá-lo de múltiplos pontos de vista a um só tempo –, as circunstâncias de Fabíola Salles, que aqui tomam forma de pinturas, nos falam do modo como nos relacionamos com o que está à nossa volta. "Na superfície, a arquitetura desenha o espaço, cria referências e pontos de apoio para o olho", escreve a artista. É nela que nosso olhar bate, são suas linhas que delimitam o que observamos na cidade, na casa, no quarto. Traços que oferecem pontos de apoio não só para o olho, mas para o corpo. Nos arranjos da artista, no entanto, espaços de cor e linha desenham uma arquitetura metafísica, improvável, onírica. Rosa e vermelha, verde e azul. Uma arquitetura onde apoio já não é uma palavra que faça muito sentido. Nela, espaços de cor e linha constroem circunstâncias – condições de tempo e lugar de impossibilidade real, mas de possibilidade perceptiva, imaginada. Como aquela que determina o modo como observamos, do centro, do nosso centro, o contexto que dele se expande.

* Texto originalmente produzido para a exposição Circunstância: centro, realizada entre outubro e novembro de 2008, no Bar do Museu, em São Paulo.
** Sem título, 2007.

Sombra e luminosidade


Sempre que visitamos uma exposição, percebemos as obras em relação com o espaço onde estão inseridas. Em Iberê Camargo - Moderno no limite, mostra que inaugura a nova sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, essa condição se vê potencializada. Em primeiro lugar, porque o prédio projetado pelo português Álvaro Siza é tão autoral em suas soluções quanto as pinturas, desenhos e gravuras que abriga. A presença imponente do átrio central, o branco que domina o espaço e as linhas sinuosas contrastando com os ângulos retos fazem do local não apenas um receptáculo, mas um componente ativo da exposição. Em segundo, porque é a primeira vez que entramos em contato com o museu, o que faz com que a pouca familiaridade com suas formas as tornem ainda mais destacadas. E, em terceiro, porque o contraste das obras com o espaço reforça o partido que a curadoria de Mônica Zielinsky, Sônia Salzstein e Paulo Sérgio Duarte toma: o de evidenciar o drama e o sentido trágico da produção de Iberê Camargo.

Em meio à luminosidade da arquitetura, a atmosfera densa e sombria dos trabalhos se vê destacada. O desencanto com a condição humana e a profunda consciência da gravidade do viver, aspectos centrais na constituição da obra de Iberê, são trazidos à tona por um recorte, sobretudo de pinturas, que privilegia os tons rebaixados da paleta do artista, a densidade e o caráter revolto da matéria pictórica, bem como a ambiência de inquietude, solidão e abandono característica de suas criações - traços que se contrapõem à claridade do espaço e à precisão e afirmatividade de seu desenho. Organizada de modo não cronológico, a exposição oferece uma amostra vigorosa do universo poético do artista, fazendo conviver, lado a lado, o adensamento e dilaceramento de umas de suas formas mais caras, os carretéis, e a tragicidade dos personagens que habitam suas telas a partir dos anos 1980: os ciclistas e as idiotas.

* Texto originalmente publicado na revista Istoé, em julho de 2008.
** Ciclista, 1990.

Detanico + Lain


Em japonês, kawaru significa “aquilo que substitui a coisa”. A expressão evoca a base de todo sistema de linguagem, a noção de representação. O fato de que a comunicação de idéias e sentimentos se dá através de signos, sejam eles gráficos, sonoros ou gestuais, para citar algumas possibilidades. Pois o conceito de kawaru também é chave para o trabalho de Angela Detanico e Rafael Lain, que utilizam o design e a tipografia, entre outras mídias, para criar sistemas de escrita. Ou, em outras palavras, sistemas de compreensão e organização do mundo.

Exemplo disso é O mundo justificado... (2004), em que os artistas redesenham o mapa-múndi através de linhas gráficas diagramadas tal qual um texto: justificadas, alinhadas à esquerda, centralizadas e alinhadas à direita. Ao desestabilizar a imagem usual do planisfério, construída a partir da Projeção de Mercator, a dupla evidencia o caráter arbitrário do sistema de notação em questão, a cartografia. Isto porque, como todo sistema de linguagem, ela não apenas representa a realidade, mas a recria. Define o que é centro e o que é periferia, o que é norte e o que é sul, o que é grande e o que é pequeno etc. Trata-se de um instrumento utilizado para traduzir o esférico em plano que nada tem de neutro ou imparcial, visto que sugere uma determinada leitura do mundo.

Operação semelhante é utilizada em Pilha (2003), um sistema de escrita que relaciona pilhas de objetos idênticos às letras do alfabeto. Um tijolo corresponde à letra “a”, dois à letra “b”, três à letra “c” e assim por diante. O trabalho também sublinha a natureza arbitrária dos sistemas de linguagem, ao mesmo tempo em que se utiliza dela para construir suas escrituras. É que a cada edição do projeto, o material utilizado nas pilhas e o texto por elas representado são definidos a partir do contexto em que a obra é exibida. Ao participarem da Trienal de Echigo-Tsumari, no Japão, por exemplo, os artistas ocuparam uma escola primária com pilhas feitas de materiais escolares e outros elementos relacionados ao lugar. Uma delas representava a palavra kawaru, noção central em um espaço dedicado, entre outras atividades, à aquisição e ao aprimoramento da linguagem. Dada a complexidade da língua japonesa, a adaptação acabou por gerar uma nova versão do trabalho (com dois eixos de acumulação de objetos, um para as vogais e outro para as consoantes), batizada de Pilha-Kana (2006).

Além de sistemas de escrita, Detanico e Lain também desenvolvem tipografias experimentais. Uma delas é Utopia (2001-2003), que combina elementos da arquitetura moderna de Oscar Niemeyer (as letras maiúsculas) a exemplos da ocupação informal do tecido urbano (as letras minúsculas), aproximação comum nas grandes cidades brasileiras. O interessante é que a tipografia permite criar paisagens em potência, ou melhor, reconfiguráveis, o que responde à condição mutável desse tipo de espaço. Helvetica Concentrated (2004) é outro tipo idealizado pelos artistas, dessa vez em colaboração com Jiri Skála. Trata-se de uma variação da tipografia suíça, que concentra a quantidade de tinta usada em cada fonte em um único ponto. Assim, a primeira letra do alfabeto, a menor, passa a ser o “i”, e a última, a maior, passa a ser o “W”. Além de ter sido aplicada na sinalização de uma monográfica da dupla, Helvetica Concentrated foi recentemente incorporada em uma nova criação, a série Nome das Estrelas (2007). As imagens, que remetem à forma de uma estrela, representam, literalmente, o nome de cada corpo celeste grafado com o tipo inventado pelos artistas. Outro trabalho de Angela Detanico e Rafael Lain que conjuga precisão conceitual com poesia em um sistema que nos convida a ler o mundo com outros olhos. Ou com outras palavras.

* Texto originalmente publicado em suplemento especial da revista EXIT Express dedicado à arte brasileira, em fevereiro de 2008.
** Antes de mais nada (pilha), 2003.